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Onde surgiu o surf?
Se alguém me fizesse essa pergunta, a minha resposta automática seria: no Hawaii.
Mas esses dias eu tava na oficina trabalhando, quando a Maria Fernanda desceu pra fazer um café e me veio com a seguinte pergunta:
“pai, existe muito litoral no planeta, não é possível que o surf tenha sido descoberto só no Hawaii. Como será que realmente surgiu o surf?”
E depois disso fiquei pensando, e realmente, não é possível que o Hawaii tenha sido o único berço do surf.
Fomos atrás dos livros que tenho ali na oficina mesmo, só que todos contavam a história que a gente já conhece: o surf sendo descoberto no Hawaii pelo Capitão Cook, e começando sua trajetória a partir dali.
Alguns desses livros até citam os caballitos de totora do Peru, mas de forma bem resumida.
E realmente, o Hawaii acaba sendo o registro mais completo do início do surf que temos na história (por enquanto).
Então resolvemos aprofundar, e pesquisando bastante encontramos o trabalho “Reconsiderando las fuentes para el estudio del surf arcaico: Polinesia, China, Perú y África occidental” do historiador Daniel Esparza, da Universidade Palacky de Olomouc, na República Checa, publicado em 2017.
O que ele achou é bem mais interessante e bem mais alternativo do que o que tinha nos livros da minha oficina.
Retomando o que disse ali em cima, no norte do Peru, os pescadores usavam (e seguem usando até hoje) os chamados caballitos de totora, “cavalinhos de totora”, que são pequenas embarcações feitas de junco. Eles sentam nela, remam até o mar para pescar, e para voltar, aproveitam o embalo das ondas.
Tem cerâmicas de culturas pré-incaicas Moche (ou Mochica) e Chimú (esculturas chamadas de huaco chimú), que habitaram a costa norte do Peru entre os anos 100 d.C. e 1400 d.C retratando pessoas deitadas em cima dos caballitos sendo empurradas por uma onda. José de Acosta, poeta espanhol, escreveu o livro “Historia natural y moral de las Indias” publicado em 1559 após passar mais ou menos quinze anos no Peru. Nessa obra tem uma passagem bem legal onde ele cita os pescadores usando esses caballitos:
“Cierto, verlos ir a pescar en el Callao de Lima era para mí cosa de gran recreación, porque eran muchos, y cada uno en su balsilla caballero, o sentado a porfía cortando las olas del mar, que es bravo allí donde pescan, parecían los tritones, o Neptunos que pintan sobre el agua.”
O autor descreve a cena com muita beleza e admiração: até mesmo compara os pescadores com figuras mitológicas fortemente ligadas ao oceano.
Consigo imaginar facilmente que essa era a parte mais divertida da pesca. Sei que ninguém consegue provar que aquilo era surf por lazer, mas também ninguém pode provar o contrário.
Eu mesmo consigo me visualizar voltando do longo dia de pesca, ficando um pouco mais na água só pra brincar nas ondas. Isso ter acontecido, por acaso, com os antigos pescadores peruanos não me parece nada impossível.
A falta de provas não significa que não aconteceu. E eu diria que abre margens para pensar que o surf também pode ter nascido ali, de uma forma bem espontânea e simples.
Inclusive, o próprio Felipe Pomar, peruano campeão mundial de surf em 1965 acreditava fielmente que o surf teria nascido no Peru e migrado até a Polinésia.
Agora vamos para a costa oeste do continente africano, a região que hoje é Gana, Senegal e Camarões.
Michael Hemmersam, um comerciante alemão, fez o registro escrito mais antigo do surf mundial (surf com pranchas) por volta de 1640. Isso foi na Costa do Ouro, atual Gana, e mais de um século antes dos relatos no Hawaii.
Eu, pessoalmente, só fiquei sabendo disso depois dessa pesquisa.
O relato de Hemmersam foi publicado em 1663 editado pelo historiador Adam Jones, e hoje está disponível na German Sources for West African History, (1599–1699).
Em 1679, na cidade de Elmina (Gana), o agente comercial e cronista francês, Jean Barbot, observou que as crianças locais aprendiam a nadar de uma forma bem inesperada: ele relata que eram colocadas tábuas, ou feixes de junco presos sob o estômago das crianças.
E o que mais me chama atenção nessa história: Barbot percebeu que eles se divertiam muito fazendo aquilo.
Mais tarde, tudo isso foi documentado na obra A Description of the Coasts of North and South-Guinea.
James Edward Alexander, oficial do exército britânico, enquanto estava ancorado em Acra, atual capital de Gana, também fez observações bem interessantes.
No dia 16 de novembro de 1834, ele escreveu o seguinte em seu diário:
“Da praia, enquanto isso, podiam ser vistos meninos nadando para o mar, com pranchas leves sob seus estômagos. Eles esperavam por uma onda; e vinham rolando como uma nuvem sobre ela.”
O relato foi publicado no livro “Narrative of a Voyage of Observation Among the Colonies of Western Africa”, em 1837, e só tenho uma coisa a dizer:
No meu ponto de vista, não tem como isso não ser uma forma de surf.
Lendo sobre relatos da China, me deparei com o “macaréu” da cidade de Hangzhou. O macaréu é simplesmente a maior pororoca do mundo, e acontece na foz do Rio Qiantang (deságua na baía de Hangzhou), e também é chamado de Dragão de Prata.
Vi sobre isso no livro “Coisas Coletadas em Wulin” (Wulin Jiu Shi - 武林旧事), escrito pelo erudito Zhou Mi (1232–1298) após a queda da Dinastia Song. (“Wulin” é o nome antigo da cidade de Hangzhou).
Zhou Mi descreveu pessoas encarando essas ondas com os chamados “langmu”, cuja tradução aproximada é “madeira de onda”, e o que achei mais impressionante é que eles pegavam as ondas de pé nessas madeiras.
Para fins de comparação, a pororoca do Amazonas (Pororoca Grande) pode medir até 2 a 4m, já o Dragão de Prata pode alcançar até 9m de altura.
Saber que tinham pessoas dispostas a enfrentar o desafio de surfar no Dragão de Prata me faz pensar que eles deviam gostar mesmo disso. Assim como surfar na Nazaré hoje em dia.
Uma obra interessantíssima que reúne vários desses relatos é o livro “Children of the Tide: An Exploration of Surfing in Dynastic China” do autor Nicola “Nik” Zanella.
Nik também trouxe referências das diferentes formas que os chineses encaravam as ondas no seu artigo acadêmico chamado “‘Treading waves’ on the Qiantang River: an
exploration of wave riding in Chinese history and literature” publicado em 2021.
Tem descrições desses antigos surfistas da China usando apenas a madeira e o corpo pra pegar as ondas, sem mais equipamentos.
Não dá pra negar que esse é um exemplo de surf e bodysurfing bem consistente.
Acredito tranquilamente na ideia de seres humanos intuitivamente associarem as ondas do mar com diversão, e um exemplo bem curioso disso são os hipopótamos no Parque Nacional de Loango, no Gabão, África, que entram no Oceano Atlântico e são fotografados pegando ondas.
Se até mesmo os hipopótamos, que são animais terrestres, se sentem atraídos a brincar nas ondas, que dirá o ser humano, que sempre teve curiosidade em sua natureza.
Os primórdios do surf nem sempre foram acompanhados de viajantes europeus anotando o que viam em seus diários.

E foi assim que parei pra pensar: as evidências materiais que provam a existência de surf em alguma civilização antiga uma hora se decompõem. Madeira, quando exposta constantemente ao sol e mar apodrece e dificilmente teremos acesso às tábuas de madeira usadas pelos surfistas antepassados.
Abre margem pra imaginar que podem ter existido histórias ainda mais antigas, mas nunca encontrar um registro que sobreviveu à passagem do tempo.
A ausência de provas não significa ausência de surf. Não ter uma comprovação não exclui todas as possíveis outras origens do surf.
E a resposta da pergunta que gerou toda essa reflexão? A verdade é que nunca vamos saber com certeza absoluta, e nem precisamos. Só de pensar que, em algum momento da nossa história, em lugares e épocas diferentes, pessoas descobriram a diversão em pegar o embalo de uma onda, é suficiente pra mim.
Eu sinto que tem algo muito especial em simplesmente deixar como um mistério que pode ser descoberto mais de uma vez, dessa forma sobram motivos pra imaginar que o surf sempre esteve aí. E sempre vai estar.
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